
Fui passear pra onde o fluxo do vento me levasse… e ele me trouxe de volta algumas cenas do tempo da talvez inocência que eu me permitia, lá pelos idos da minha infancia.
Decidi relembrar caminhos que de forma tão fugaz sairam daquela antiga rotina, casas que deixaram de ser lares meus para abrigar sabe-se lá quem que se apropriou daqueles cantos e de quartos secretos meus. Andei por vielas que por hora tinha medo de passear quando escurecia, que tinha cana docinha pra roubar do sem dono que pertenciam, e pra cortar caminho como sempre! Não havia mais cana, a viela ja era uma ruazinha, e o caminho continuava mais curto.
Revi aquela lojinha de doce, que com 1 real eu quase dona era de lá, sim, com 1 real. Re-experimentei aquele sorvete feito de suco, o algodão doce colorido e aqueles muitos salgadinhos… Não eram iguais! Não eram os mesmos sabores! E o meu 1 real precisou de companhia.
Fui rever aquela rua, da antiga casa à padaria, nossa, que corpo mole que eu fazia pra comprar pão, era tããão longe… A casa antiga foi reformada e de tão nova nem a reconheci, mas o endereço era o mesmo, e a padaria já não era tão longe mesmo estando fixa la por anos.
A casa que eu comprava papel de carta continua lá, a casa que eu comprava geladinho também e a casa que me permitia comer pitangas em seu quintal da mesma maneira… Mas não havia papel de carta, geladinhos, nem pitangas naquela estação.
A escolinha vizinha que me permitia patinar nos grandes e lisos pátios, tinha tanto segurança agora que eu não podia nem me aproximar daquela intensa entrada e saída de alunos.
A vendinha do seu Otacílio que sempre fez parte integrante das minhas artes continuava ali, com outra pessoa no balcão e já não vendia mais pipas a 0,25 cents, bolinhas de gude por 1 real o pacote nem os io-ios coloridos.
Naquela padaria que era longe e hoje de tão perto chega a expremer lembranças que já não fazem mais sentido, as promoções de frango aos finais de semana também eram diferentes, um saboroso frango não custava mais 6 reais, mas 15, com batata gratis(?). O cheiro do almoço do domingo após culto era o mesmo, mas o frango não.
Minhas antigas vizinhas… precisava revê-las. Quantas recordações! Brincavamos de boneca, patins, pic-nic com tomate e chiclete, de esconde-esconde, professora, de pular o muro, queimada e pega-pega. Ficavamos na laje, dançando com músicas num volume tão alto que as pessoas dançavam juntas onde estivessem, ficamos com catapora todas juntas e bolavamos planos para sermos felizes quando crescessemos! Ah, uma delas casou e se mudou, outra não estava devido a compromissos… E assim elas já não eram mais minhas vizinhas.
Tudo que era muito grande, estava pequeno. Tudo o que era muito longe, perto. Tudo o que me incluía la, me excluía também. Eu era um não-eu das minhas próprias recordações e lembranças. E assim, não sei dizer o que disso tudo é invenção ou realidade, pois tudo mudou, mas de tudo eu lembro. E assim, saio de lá e volto pra minha rotina de hoje, onde tudo ainda é grande e longe.
Não Faço Mais Parte
23/10/2009 por drickaperilo
Nossa Dri, muito bonito o texto! Me seu medo de ficar velho! Hahaha! Eu hein!
Não sei se o pior é envelhecer, ou (re)viver do que ja passou…